TEXTO:
Que há pobreza, e grande, no Brasil, todos
sabiam, mas não supunham que chegasse a um
estado de indigência. Segundo o estudo Radar Social
[2005], que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
[5] acaba de divulgar, o Brasil é o penúltimo país, entre
130, em distribuição de renda, não perdendo apenas
para Serra Leoa, paupérrimo Estado africano. Pouco
mais de 30% da população brasileira vive em estado
de pobreza.
[10] Ninguém é pobre porque quer. Pobreza supõe
uma situação forçada, involuntária, resultante de
escassez de meios. Há uma pobreza sinônimo de
modéstia, praticada pelos que renunciam aos bens
supérfluos ou ostentatórios, mas o estudo refere-se
[15] a uma pobreza extrema, no limite das necessidades
mínimas. Nesse caso, indesejada. Imposta por
circunstâncias políticas e sociais ainda sem o controle
dos que praticam a pobreza moral.
As desigualdades apontadas pelas estatísticas
[20] deveriam doer fundo na consciência nacional. Por
exemplo: apenas 1% dos brasileiros, os mais ricos,
tem renda igual ao conjunto da renda de metade
da população. A renda per capita, em certos casos,
como o de uma parcela da população negra, desce
[25] a meio salário mínimo. Em matéria de concentração
de renda, somos campeões incontestáveis. Este, no
entanto, é um país potencialmente rico, uma espécie
de terra de Canaã. Mas se morre de desnutrição na
terra de Canaã.
[30] Também há analfabetos — cerca de 15% da
população — e acesso dificultado à educação, à
higiene, à saúde, à moradia, ao emprego. Para uns
poucos, privilégios; para a maioria, abandono ou
dádivas de cunho paternalista que apenas mitigam
[35] necessidades, quando não equivalem à esmola
pública. O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) recomenda ênfase nos programas
sociais capazes de distribuir renda, mas prioriza,
como receita permanente, o crescimento econômico.
[40] Somente ele será capaz de absorver os contingentes
de pobres em estado de absoluta carência.
É esse um programa de longo alcance, para
o longo prazo. Mas, sendo o único capaz de gerar
dividendos sociais duradouros, terá de resultar de
[45] vontade nacional, de pacto político, de combate à
corrupção, de mudança de atitudes mentais que
privilegiam o elitismo. Dele dependerá a sobrevivência
dos pobres em nível de pobreza suportável e digna,
e também a segurança do país.
[50] Como está posta e consentida, a pobreza de
meios é má conselheira. Ao se avizinhar da miséria,
ela gera revolta e exacerba conflitos de classe que
terminam por fragilizar o pacto social. E, então, o país
se torna ingovernável.
POBREZA forçada. s.d. Opinião, p. 2. Editorial.
Analisando o desenvolvimento das idéias no texto, pode-se afirmar: