TEXTO:
As batalhas talvez sejam as mais antigas
atividades humanas. Por mais que saibamos ser uma
atividade atávica que a evolução não soube “limpar”
de nossos instintos fica difícil imaginarmos que é
[5] “justa” a existência de tal instinto.
É certo que foi necessário possuir o instinto
guerreiro para que a espécie humana pudesse ter
evoluído até nossos dias. Sem esse instinto, não
teríamos lutado, muitas vezes de forma insana e
[10] aparentemente sem chances, contra predadores
muito mais fortes do que nós. Mas tínhamos um
grande aliado que os predadores não tinham — a
inteligência emergente.
O homem estava em constante “guerra” nos
[15] tempos primários da evolução. A verdade é que nós
conseguimos desenvolver, pouco a pouco, uma
tecnologia que nos protegeu dos predadores, nos
protegeu das dificuldades naturais, de um modo geral.
Tudo isso era necessário em uma época muito pouco
[20] propícia à manutenção de uma espécie tão fraca
como a nossa, em um mundo tão árido de facilidades
e de proteção. O homem existe hoje, porque nossos
antepassados lutaram. E lutaram muito. Pela comida
e pela casa.
[25] A grande e injusta ironia é que ainda fazemos
isso: temos de lutar pela comida e pela casa.
Agora, de uma forma bastante diferente na potência,
mas bastante idêntica na essência. Não são mais
“dentes-de-sabre” que nos atacam, são dívidas.
[30] Toda a comida que havia à disposição de nossos
antepassados, hoje, está protegida dentro de
edifícios. O solo do planeta, hoje, tem dono... O que
se encontra abaixo do solo tem dono... Onde pousaria
um marciano se viesse nos visitar?
[35] O ambiente pré-histórico encontra-se gravado
em nós de uma forma muito atuante e evidente.
Não existem mais os grupamentos primitivos — os
“donos” de cada uma das cavernas —, mas os atuais
grupamentos não-primitivos — os povos — ainda
[40] agem da mesma forma. Lutamos por algo que não
entendemos, matamos por algo que não aceitamos,
queimamos quem pensa diferente de nós.
A paz ainda é um sonho, algo que pode chegar
a acontecer, ou não. Não sabemos se o homem terá
[45] tempo suficiente, na Terra, para “vencer” a evolução
e dominar o monstro belicoso que existe dentro de
nossas mentes, bem escondido, o suficiente para
posarmos de civilizados!
Não seria demais tentarmos fazer com que
[50] ocorra o que a biologia não pode fazer — livrar-nos
dos instintos que não são mais necessários para a
manutenção da vida no planeta, pelo contrário, esses
instintos estão prestes a destruir a vida na Terra. Em
1976 já tínhamos estocado material nuclear suficiente
[55] para destruir a humanidade várias vezes. Quão insano
é o grupamento que pode se destruir algumas vezes!
Só temos uma humanidade, por que ter mais do que
podemos “gastar”?
A vitória da razão contra os instintos é
[60] muito difícil, uma vez que quase nunca estamos
convencidos de sermos seres biológicos. Estamos
quase sempre pensando sobre a humanidade como
seres puramente sociais, o que não é verdade.
Estamos sob todas as leis da biologia. Muito do que
[65] fazemos é fruto de uma “programação” antiga, gasta,
já desnecessária. Já é chegada a hora de mudarmos
isso. Aos poucos devemos mudar o homem para que
não seja preciso juntar os escombros da humanidade.
LUGARINHO, Airton. In: Revista Humanidades, Brasília, n. 3, v. 10, p. 201, UNB, s.d. Carta ao leitor.
“Estamos quase sempre pensando sobre a humanidade como seres puramente sociais, o que não é verdade.” (l. 61-63)
O ponto de vista do autor, expresso na frase em destaque,encontra sua melhor justificativa no fragmento