TEXTO:
A lei do entretenimento
Nada mais desprezível e repetitivo do que
certas falas sobre cultura que jorram nos congressos,
seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é de
que houve uma perda da capacidade de produzir
[5] pensamento e de que faltam plateias seduzidas pela
reflexão. Não se interroga a produção simbólica,
fazem-se reivindicações, relatos, comentários
para animar um auditório acostumado ao olhar da
televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o
[10] intelectual, o crítico, o artista e o poeta ocupavam
o lugar privilegiado de formadores de opinião, hoje
esse lugar é ocupado pelo produtor, pelo empresário
cultural e pelo profissional de marketing. E a cultura
é vista apenas como um agente de estímulo da
[15] economia de uma sociedade em declínio.
O discurso fica na superficialidade. De que a
cultura é um bem de consumo, ninguém duvida;
gera emprego e garante retornos significativos para
a economia de uma cidade. Mas os profissionais do
[20] marketing, os políticos e os empresários ignoram
na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma
dimensão da existência do homem. “O que chamamos
‘cultura’, portanto, é a ciência e a consciência com que
o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada
[25] histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa
ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão).
A cultura é um conjunto de práticas por onde
transitam uma autonomia, a experiência de um saber
e uma política específica. O patrocínio que substituiu
[30] o antigo mecenato reduziu os problemas da cultura às
leis da economia, e o poder do patrocinador acabou
decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há
uma valorização arbitrária de um produto cultural em
detrimento de outro e a divulgação fica submetida a
[35] um jogo de poder de quem manipula, direta ou
indiretamente, com os mídias e o mercado. [...]
Uma Cidade, um Estado, um País passam
a ter uma existência cultural e conquistam um
reconhecimento no futuro, quando aprendem
[40] a respeitar seus artistas e intelectuais, quando
aprendem a conviver com as disparidades culturais
e a garanti-las. Entendemos que as instituições
culturais, como fundações, universidades, museus
etc., têm um papel importante a cumprir na produção
[45] e divulgação da informação dos produtos artísticos,
acima de compromissos pessoais e políticos que
ignoram a natureza das linguagens artísticas.
ALMANDRADE. A lei do entretenimento. s.d.
No trecho “Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula, direta ou indiretamente, com os mídias e o mercado.” (l. 32-36), o articulista