TEXTO:
A medicina moderna é, sobretudo, paliativa e
bastante orgulhosa de sê-la. Não estou me referindo ao
câncer. Por tratamento paliativo, eu me refiro àquele que
reduz ou ameniza a severidade da dor ou da doença
[5] sem remover sua causa e nem efetuar uma cura (do
latim palliare, encobrir).Trata-se, em outras palavras, de
controle. Mais precisamente, é como transformar uma
necessidade em virtude. E, também, falsa bravata.
O que a medicina precisa fazer é impelir-se em direção
[10] à cura, por um lado, e à prevenção, por outro. A cura,
todavia, está fora de questão, já que parece inalcançável,
e a prevenção não está em lugar nenhum da consciência
coletiva de pesquisadores biomédicos e de formadores
de opinião. Eu suspeito que provavelmente isso se dê
[15] porque elas findariam por torná-los redundantes. E o lobby
da prevenção e da cura faz apenas barulhos fracos, se é
que faz algum, e não possui o poder de mudar a opinião
dominante.
O que isso realmente significa é que, enquanto a
[20] verdade está lá para ser vista por todos e agir sobre seu
trabalho, nada é feito. Por que deve ser assim? Será
que é por que a humanidade é guiada por um Tanatos
arrojadamente dirigido, conforme afirmou Freud? De modo
que ela nega e impede realizações importantes, pois
[25] deve impelir-se rumo ao declínio e à morte definitiva,
enquanto parece estar ostensivamente lutando contra
isso o tempo todo com suas contínuas manobras
heroicas?
Deixe-me colocar a questão de forma um tanto
[30] diferente. O que o médico moderno deveria estar fazendo?
Ele deveria prevenir uma doença para que não aconteça
ou curá-la, caso ela ocorra. O que o médico moderno,
inclusive eu, está fazendo? Ele nem previne e nem cura,
a não ser em poucas situações. Ele apenas controla o
[35] alastramento da doença e oferece cuidados paliativos
ao fazê-lo; seu lema pode ser resumido em uma
sentença: curar às vezes, confortar sempre, machucar
o menos possível, causar danos nunca (Singh e Singh,
2005).
[40] O epítome do tratamento paliativo, certamente, mas
não aquele da cura nem o da prevenção. Essa percepção
não impele o médico moderno em direção à cura ou à
prevenção. Ela o impulsiona em direção a tratamentos
paliativos mais numerosos e mais eficientes. De modo
[45] a livrá-lo rapidamente da constatação que o encara e
expõe sua nudez frente a tudo, especialmente perante a
sua consciência.
SINGH, Ajai R. A medicina moderna é, sobretudo, paliativa.
Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-
47142010000200 008&script=sciarttext>. Acesso em: 24 set. 2015.
Percebe-se um traço irônico nas afirmativas transcritas em
I. “e bastante orgulhosa de sê-la.” (l. 1-2).
II. “Não estou me referindo ao câncer.” (l. 2-3).
III. “Trata-se, em outras palavras, de controle.” (l. 6-7).
IV. “Mais precisamente, é como transformar uma necessidade em virtude.” (l. 7-8).
V. “A cura, todavia, está fora de questão, já que parece inalcançável” (l. 10-11).
A alternativa em que todas as afirmações indicadas estão corretas é a