Atente para o excerto abaixo, de “História Concisa da Literatura Brasileira”, de Alfredo Bosi:
“a visão da obra machadiana em dois momentos, cujo divisor de águas seriam as Memórias Póstumas de Brás Cubas, compreende-se melhor se atribuída a uma reestruturação original da existência operada pelo homem que, se havia muito perdera as ilusões, ainda não encontrara a forma ficcional de desnudar as próprias criaturas, isto é, ainda não aprendera o manejo do distanciamento. Quando o romancista assumiu, naquele livro capital, o foco narrativo, na verdade passou ao defunto-autor MachadoBrás Cubas delegação para exibir, com o despejo dos que já nada mais temem, as peças de cinismo e indiferença com que via montada a história dos homens. A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente.”
Tendo como base o trecho acima, é possível afirmar que
I. Machado de Assis escolhe, em lugar de utilizar um narrador ficcional, narrar seus próprios livros, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, fazendo autoficção, embora use o alter ego Brás Cubas para isso.
II. A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado se torna de fato autor realista, pois suas obras anteriores, embora contendo traços do Realismo, eram ainda, no mínimo, influenciadas pelo Romantismo.
III. Ao conseguir se distanciar das personagens que cria, Machado também passa ao uso constante da linguagem irônica, do “cinismo e indiferença”, para contar suas histórias, o que acontece a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
IV. A obra de Machado de Assis se divide em dois momentos, sendo o primeiro o realista e o segundo o naturalista, como ocorre na historiografia brasileira, vindo o Naturalismo logo após o Realismo.
V. Na verdade a obra machadiana é uma só, não podendo ser dividida em dois momentos. Tal pensamento só pode ser compreendido se Memórias Póstumas de Brás Cubas for tomado como um romance revolucionário, o que não condiz com a opinião de Bosi.
Está correto o que se afirma apenas nas proposições