Texto 1
[1] Moradores de Higienópolis admitiram ao jornal Folha de S. Paulo que a abertura de uma estação de
metrô na avenida Angélica traria “gente diferenciada” ao bairro. Não é difícil imaginar que alguns vizinhos
do Morumbi compartilhem esse medo e prefiram o isolamento garantido com a inexistência de transporte
público de massa por ali.
[5] Mas à parte o gosto exacerbado dos paulistanos por levantar muros, erguer fortalezas e se refugiar
em ambientes distantes do Brasil real, o poder público não fez a sua parte em desmentir que a chegada do
transporte de massas não degrade a paisagem urbana.
Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia, e grande especialista em transporte coletivo,
diz que não basta criar corredores de ônibus bem asfaltados e servidos por diversas linhas. Abrigos
[10] confortáveis, boa iluminação, calçamento, limpeza e paisagismo que circundam estações de metrô ou
pontos de ônibus precisam mostrar o status que o transporte público tem em uma determinada cidade.
Se no entorno do ponto de ônibus, a calçada está esburacada, há sujeira e a escuridão afugenta
pessoas à noite, é normal que moradores não queiram a chegada do transporte de massa.
A instalação de linhas de monotrilho ou de corredores de ônibus precisa vitaminar uma área, não
[15] destruí-la.
Quando as grades da Nove de Julho foram retiradas, a avenida ficou menos tétrica, quase bonita.
Quando o corredor da Rebouças fez pontos muito modestos, que acumulam diversos ônibus sem dar
vazão a desembarques, a imagem do engarrafamento e da bagunça vira um desastre de relações
públicas.
[20] Em Istambul, monotrilhos foram instalados no nível da rua, como os “trams” das cidades alemãs e
suíças. Mesmo em uma cidade de 16 milhões de habitantes na Turquia, país emergente como o Brasil,
houve cuidado com os abrigos feitos de vidro, com os bancos caprichados – em formato de livro – e com a
iluminação. Restou menos espaço para os carros porque a idéia ali era tentar convencer na marra os
motoristas a deixarem mais seus carros em casa e usarem o transporte público.
[25] Se os monotrilhos do Morumbi, de fato, se parecerem com um Minhocão*, o Godzilla do centro de
São Paulo, os moradores deveriam protestar, pedindo melhorias no projeto, detalhamento dos materiais,
condições e impacto dos trilhos na paisagem urbana. Se forem como os antigos bondes, ótimo.
Mas se os moradores simplesmente recusarem qualquer ampliação do transporte público, que
beneficiará diretamente os milhares de prestadores de serviço que precisam trabalhar na região do
[30] Morumbi, vai ser difícil acreditar que o problema deles não seja a gente diferenciada que precisa circular
por São Paulo.
(Raul Justes Lores. Folha de S. Paulo, 07/10/2010. Adaptado.)
(*) Elevado Presidente Costa e Silva, ou Minhocão, é uma via expressa que liga o Centro à Zona Oeste da cidade de São Paulo
No texto, “gente diferenciada” é equivalente a