Texto 2
[1] Gosto de olhar as capas das revistas populares no supermercado nestes tempos de corrida do ouro da
classe C. A classe C é uma versão sem neve e de biquíni do Yukon do tio Patinhas quando jovem pato.
Lembro do futuro milionário disneyano enfrentando a nevasca para obter suas primeiras patacas. Era preciso
conquistar aquele território com a mesma sofreguidão com que se busca, agora, fincar a bandeira do consumo
[5] no seio dos emergentes brasileiros.
Em termos jornalísticos, é sempre aquela concepção de não oferecer o biscoito fino para a massa. É
preciso dar o que a classe C quer ler – ou o que se convencionou a pensar que ela quer ler. Daí as políticas de
didatismo nas redações, com o objetivo de deixar o texto mastigado para o leitor e tornar estanque a
informação dada ali. Como se não fosse interessante que, ao não compreender algo, ele fosse beber em
[10] outras fontes. Hoje, com a Internet, é facílimo, está ao alcance da vista de quase todo mundo.
Outro aspecto é seguir ao pé da letra o que dizem as pesquisas na hora de confeccionar uma revista
popular. Tomemos como exemplo a pesquisa feita por uma grande editora sobre “a mulher da classe C” ou
“nova classe média”. Lá, ficamos sabendo que: a mulher da classe C vai consumir cada vez mais artigos de
decoração e vai investir na reforma de casa; que ela gasta muito com beleza, sobretudo o cabelo; que está
[15] preocupada com a alimentação; e que quer ascender social e profissionalmente. É com base nestes números
que a editora oferece o produto – a revista – ao mercado de anunciantes. Normal.
Mas no que se transformam, para o leitor, estes dados? Preocupação com alimentação? Dietas
amalucadas? A principal chamada de capa destas revistas é alguma coisa esdrúxula como: “perdi 30 kg com
fibras naturais”, “sequei 22 quilos com cápsulas de centelha asiática”, “emagreci 27 kg com florais de Bach e
[20] colágeno”, “fiquei magra com a dieta da aveia” ou “perdi 20 quilos só comendo linhaça”. Pelo amor de Deus,
quem é que vai passar o dia comendo linhaça? Estão confundindo a classe C com passarinho, só pode.
Quer reformar a casa? Nada de dicas de decoração baratas e de bom gosto. O objetivo é ensinar como
tomar empréstimo e comprar móveis em parcelas. Ou então alguma coisa “criativa” que ninguém vai fazer, tipo
uma parede toda de filtros de café usados. Juro que li isso. A parte de ascensão profissional vem em matérias
[25] como “fiquei famosa vendendo bombons de chocolate feitos em casa” ou “lucro 2500 reais por mês com meus
doces”. Falar das possibilidades de voltar a estudar, de ter uma carreira ou se especializar para ser promovido
no trabalho? Nada. Dicas culturais de leitura, filmes, música, então, nem pensar.
Cada vez que vejo pesquisas dizendo que a mídia impressa está em baixa penso nestas revistas. A
internet oferece grátis à classe C um cardápio ainda pobre, mas bem mais farto. Será que a nova classe média
[30] quer realmente ler estas revistas? A vendagem delas é razoável, mas nada impressionante. São todas
inspiradas nas revistas populares inglesas, cuja campeã é a “Take a Break”. A fórmula é a mesma de uma
“Sou + Eu”: dietas, histórias reais de sucesso ou escabrosas e distribuição de prêmios. Além deste tipo de
abordagem também fazem sucesso as publicações de fofocas de celebridades ou sobre programas de TV –
aqui, as novelas.
[35] Sei que deve ser utopia, mas gostaria de ver publicações para a classe C que ensinassem as pessoas a
se alimentar melhor, que mostrassem como a obesidade anda perigosa no Brasil porque se come mal.
Atacando, inclusive, refrigerantes, redes de fast food e guloseimas, sem se preocupar em perder anunciantes.
Que priorizassem não as dietas, mas a educação alimentar e a importância de fazer exercícios e de levar uma
vida saudável. Gostaria de ver reportagens ensinando as mulheres da classe C a se sentirem bem com seu
[40] próprio cabelo, muitas vezes cacheado, em vez de simplesmente copiarem as famosas. Que mostrassem
como é possível se vestir bem gastando pouco, sem se importar com marcas.
Gostaria de ler reportagens nas revistas para a classe C alertando os pais para que vejam menos
televisão e convivam mais com os filhos. Que falassem da necessidade de tirar as crianças do computador e
de levá-las para passear ao ar livre. Que tivessem dicas de livros, notícias sobre o mundo, ciências, artes – é
[45] possível transformar tudo isso em informação acessível e não apenas para conhecedores, como se a cultura
fosse patrimônio das classes A e B. Gostaria, enfim, de ver revistas populares que fossem feitas para ler de
verdade, e que fizessem refletir. Mas a quem interessa que a classe C tenha suas próprias ideias?
(Cynara Menezes, 15/07/2011, em: http://www.cartacapital.com.br/politica/o-que-quer-a-classe-c)
Para a autora, um bom texto é aquele que
I. explicita ao máximo as informações para o leitor.
II. leva o leitor a procurar outras fontes de informação.
III. possibilita a reflexão do leitor.
IV. necessita de pouco tempo para ser lido e compreendido.
Está correto o que se afirma apenas em