INSTRUÇÃO: Responder à questão com base no texto.
TEXTO
Teoria do Medalhão
Machado de Assis
– [...] Sentenças latinas, ditos históricos, versos
célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom avi-
so trazê-los contigo para os discursos de sobremesa,
de felicitação, ou de agradecimento. Caveant consu-
[5] les é um excelente fecho de artigo político; o mesmo
direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam
renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa
frase nova, original e bela, mas não te aconselho
esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas.
[10] Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa
de mero adorno, são as frases feitas, as locuções
convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos,
incrustadas na memória individual e pública. Essas
fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a
[15] um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei
por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando
os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado.
Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar
uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz
[20] efeito, subsiste o mal.
Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosida-
des vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a
uma coleta fastidiosa de documentos e observações,
análise das causas prováveis, causas certas, causas
[25] possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito
reformado, da natureza do mal, da manipulação do
remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria,
enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos,
e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo
[30] esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes
das leis, reformemos os costumes! – E esta frase
sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio co-
mum, resolve mais depressa o problema, entra pelos
espíritos como um jorro súbito de sol.
[35] [...]
– Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é
nada fácil.
– Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come
tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e
[40] felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os
que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas
os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as
muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas.
Só então poderás dizer que estás fixado.
[45] Começa nesse dia a tua fase de ornamento indis-
pensável, de figura obrigada, de rótulo.
Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões,
comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com
o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetiva-
[50] dos, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o
odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso
dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios.
E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma
do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O
[55] substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo
do vocabulário.
[...]
In: Papéis avulsos, 1882
Analise as afirmativas sobre o conto, em que os interlocutores são pai e filho, preenchendo os parênteses com V (verdadeiro) ou F (falso).
( ) O diálogo entre os dois interlocutores constitui-se no núcleo da narrativa.
( ) A sutil ironia do autor reflete sua condescendência com a sociedade.
( ) A intensa ação do conto associa-se à exposição de ideias do pai.
( ) O pai faz uma série de recomendações ao filho para que tenha sucesso na vida.
O correto preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é