INSTRUÇÃO: Responder à questão com base nos textos 1, 2 e 3.
TEXTO 1
Nélida Piñon
A escrita é, por natureza, ambígua. Portanto,
ela circula pelos sexos do mundo. A escrita reflete o
que nós somos. E ela não aprisiona pelos gêneros.
Escrever é obrigatoriamente visitar o coração do
[5] pensamento. A mulher, embora recente no mundo
canônico da cultura, é herdeira de todos os saberes
humanos. Ela tem um coração tão polissêmico quan-
to o coração masculino. Você não fala em literatura
masculina; você fala em literatura, e de preferência
[10] boa literatura. Eu acho que a literatura da mulher
ocupa todos os espaços da humanidade. Isto dito, o
que há são características, não de mulher e de ho-
mem, mas de escritor. Se fosse assim, como Flaubert
teria podido escrever “Madame Bovary” (1856) e ter
[15] dito com todo orgulho: “Eu sou Emma”. Se ele tinha
coragem de dizer que era Emma, eu tenho coragem
de dizer que sou o quê? Um personagem masculino.
O grande escritor que abarca os mistérios da arte
narrativa é proteico, ele enverga. Ele tem que ser do
[20] sexo do homem, da mulher, ele tem que ser pedra,
tem que ser mineral, animal, tem que ser coisas vi-
vas... Ele é tudo que existe. Não existe essa história
de literatura feminina.
Disponível em: https://goo.gl/4xUA7h. Acesso em 3 jun. 2018.
TEXTO 2
A um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
[5] Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
[10] Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Olavo Bilac, ∈ “Poesias”.
TEXTO 3
De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor
minha vida em dobrados passos; servia para quê?
Quero é armar o ponto dum fato, para depois lhe
pedir um conselho. Por daí, então, careço de que
[5] o senhor escute bem essas passagens: da vida de
Riobaldo, o jagunço.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p.187.
Analise as afirmativas a respeito das relações coesivas entre as frases nos textos 1, 2 e 3.
I. O emprego repetido de “tem que”, nas linhas 19 a 21 do texto 1, indica que o grande escritor, segundo a autora, é necessariamente um ser múltiplo.
II. No verso 04 do texto 2, a repetição do “e” é um recurso estilístico que, neste caso, justifica o emprego dos substantivos “esforço” (verso 06) e “suplício” (verso 09).
III. No texto 3, há uma relação de causalidade entre os períodos “De tudo não falo. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos” (linhas 01 e 02).
Está/Estão correta(s) a(s) afirmativa(s)