No dia 15 de agosto de 1876, a Revista Illustrada (RJ), periódico semanal de perfil satírico, político, abolicionista e republicano, dirigido por Angelo Agostini, divulgou uma crônica redigida por Machado de Assis em que afirmava:
“(...) publicou-se há dias o recenseamento do Império, do qual se colige que 70% da nossa população não sabem ler.
Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas, nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica. (...) A Nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem na mais profunda ignorância. (...) 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o quê. Votam como vão à festa da Penha – por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.”
Machado de Assis. “História de Quinze Dias”. In: Obra Completa. Volume III. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1986.
Com base na leitura do excerto, responda às questões:
a) Qual é o fato social denunciado pelo cronista?
b) Cite dois efeitos sociais decorrentes da observação de que “70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber porque nem o quê.”
c) Relacione a frase “A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida” com exigências formais para o exercício do direito ao voto no período.