“O meu ensino recebeu tanta força e autoridade que aqueles que anteriormente aderiam com mais veemência àquele nosso mestre, e que molestavam ao máximo o meu ensino, acorreram em revoada às minhas aulas, e aquele mesmo que havia sucedido ao meu mestre na escola-catedral de Paris me ofereceu o seu lugar, a fim de que aí mesmo, junto com os outros, ele se inscrevesse entre os meus alunos, onde antes florescera aquele que fora o seu e o meu mestre. No entanto, não é fácil exprimir como, poucos dias depois de eu aí reger a cadeira de dialética, meu mestre começou a consumir-se de inveja, e com que sofrimento se atormentava, de tal modo que, não sustentando por muito tempo o ardor da miséria que o dominara, empreendeu astutamente conseguir a minha remoção. Mas como não tinha motivo para agir contra mim abertamente, resolveu privar da escola, sob a acusação de crimes detestáveis, aquele que me cedera o seu lugar de professor e que foi substituído na sua função por um outro que fora outrora meu rival. Então voltei a Melun e aí estabeleci a minha escola como antes, e quanto mais claramente a sua inveja me perseguia tanto mais autoridade ele me proporcionava.”
ABELARDO, Pedro. “A história das minhas calamidades: carta autobiográfica”. In: Os pensadores. 2ª ed. São Paulo: Abril, 1979, tradução: Ruy Afonso da Costa Nunes.
Abelardo (1079-1142) foi um dos iniciadores do movimento que deu origem à Universidade de Paris. Como demonstra o excerto apresentado, ocorreu um desenvolvimento espontâneo de escolas, que foi determinante para a consolidação das primeiras universidades europeias na Baixa Idade Média. Considerando o excerto,
a) apresente uma característica das formas de transmissão de conhecimento na Baixa Idade Média, período no qual esse texto foi escrito.
b) explique o grau de autonomia das universidades medievais, frente às demais instâncias de poder na Baixa Idade Média.
c) é possível afirmar que as universidades se estruturavam em torno da autoridade intelectual de um mestre? Justifique sua resposta.